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jul

Veículo: Revista Cobertura
Assunto: “Linhas Financeiras em Alta”
Tempo de leitura: 14 minutos

Em linhas financeiras, cresceu a demanda pelo seguro garantia e de responsabilidades, D&O e E&O. Por outro lado, as seguradoras estão mais criteriosas na aceitação do risco, o que não necessariamente significa aumento de recusa. Especificamente do seguro garantia, Caroline Ayub, superintendente de Garantia e Linhas Financeiras da Tokio Marine, explica que o crescimento se deu pela possibilidade de substituí-lo pelo depósito recursal realizado em dinheiro. “Isso beneficia a liberação de recursos para as empresas em dificuldades econômicas por conta da pandemia de covid-19”.

Inclusive, a Tokio Marine apresentou novidades. “No garantia, nós fizemos algumas atualizações nos portais do parceiro, do tomador e na plataforma de multicálculo para corretoras, de modo a dar ainda mais agilidade aos processos e reduzir o trabalho operacional do corretor, proporcionando mais autonomia aos segurados da modalidade de depósito recursal”.

A principal novidade, diz Caroline, “é a liberação de limite automático de R$20 milhões sem a necessidade do envio de documentos do cliente. Esse valor é o dobro da média oferecida pelo mercado neste formato de aprovação. O processo é feito a partir de uma análise interna e com a assinatura do contrato de contragarantia, realizado de forma eletrônica”.

Além do garantia, a executiva conta que até março deste ano houve uma evolução considerável em três categorias neste segmento. “Garantia, com crescimento de 217%; D&O, cuja evolução foi de 58,9%, e E&O com aumento de 23,2%. Na mesma direção, as modalidades de D&O e E&O estão em constante crescimento no País e com um amplo campo de oportunidades, de grandes corporações a PMEs”.

Nas outras companhias também é notório o aumento de demanda pelo seguro garantia. “Nós temos recebido muitas consultas, motivadas por algumas flexibilizações no processo de aceitação por parte do segurado. A substituição dos depósitos em dinheiro pela apólice é um benefício significativo para as empresas, ainda mais em um momento de crise, elas precisam de
caixa”, afirma Pedro Mattosinho, diretor da Fator Seguradora “Temos notado um aumento pela procura pelo seguro garantia em sua modalidade judicial especialmente em razão das recentes decisões judiciais que facilitaram a aceitação deste nstrumento.
Este fato consolidou o seguro como uma das alternativas ao depósito judicial, favorecendo as empresas que podem se utilizar da apólice para liberar um caixa que estava inacessível por estar atrelado a um processo judicial”, comenta Fernando Gonçalves Pinto, head de Financial Lines, Garantia e P&C da Argo Seguros.

Ele acrescenta, informando que “os seguros de responsabilidades também têm tido uma maior demanda, com destaque para o RC Administrador – D&O e para os ramos com soluções voltadas para a área da saúde como o E&O e o RCG”. Superintendente de Linhas Financeiras e Seguro Garantia da Zurich no Brasil, Fernando Saccon também destaca o seguro garantia, o D&O e o cyber.
“D&O porque o atual cenário torna as decisões tomadas por administradores cada vez mais críticas e fundamentais para o futuro e continuidade das empresas, portanto, sujeitas a questionamentos.

Há também as dificuldades financeiras que muitas empresas têm passado no momento atual”. Sobre o Cyber, ele diz que o cenário atual de trabalho remoto traz um risco adicional para a segurança da informação por parte das empresas. “Com
relação ao seguro garantia ainda observamos uma procura maior para garantias judiciais, dado as últimas manifestações de órgãos do judiciário sobre a possibilidade de substituir cauções feitas em dinheiro ou fiança bancária.

As empresas veem isso como forma de ter um retorno de capital em seus caixas, hoje muito impactado pelo cenário econômico abalado com a pandemia”. Linhas que também tiveram aumento de demanda na Alper Consultoria em Seguros. “Percebemos uma maior
procura pelo cyber, seguro de crédito, seguro garantia e pelo D&O. Não era previsto o aumento dessas linhas, a transferência do risco pela proteção de crédito e linhas como o garantia é uma forma de liberar eventuais recursos depositados judicialmente revertendo para o caixa da empresa. E o cyber, muito em função do home office que expõe as empresas a um risco maior de ataque cibernético. O nível de segurança da informação no ambiente doméstico é inferior ao do ambiente corporativo”, expõe o diretor de Riscos Corporativos e Sinistros, Ilan Kajan Golia.

Na MDS Brasil, em abril deste ano, quando comparado ao mês anterior, o índice de consulta para o seguro garantia judicial cresceu 80%, na modalidade depósito recursal. “Nesse momento, esse seguro tem sido o carro-chefe do meu departamento, pois ele permite a substituição do depósito em dinheiro pela apólice. Isso gerou uma busca desenfreada pelas empresas por esse tipo de seguro para elas terem dinheiro em caixa”, diz o diretor de Linhas Financeiras,
Leandro Freitas.

Análise de risco Pelo aumento da demanda, a Alper Consultoria em Seguros reforçou o time da área de riscos financeiros, por outro lado, Golia comenta que as seguradoras estão mais restritivas. “Notamos nas seguradoras uma preocupação
maior em assumir esses riscos. Algumas companhias colocaram um questionário adicional para saberem quais medidas de contingência as empresas estão adotando nesse momento de covid-19. Elas estão mais reativas aos riscos, reduziram a automaticidade dos subscritores locais no processo de aceitação do risco e está havendo aumento de recusas”.

Na Argo Seguros, diz Gonçalves, “não diria que há um aumento de recusas, mas sim uma adequação de termos e condições de algumas apólices à realidade que a pandemia impôs, mas com o devido apoio que sempre demos aos nossos parceiros. O importante é destacar que quanto maior o número de informações que os clientes proporcionem, melhor fica o processo de subscrição e, portanto, a própria cotação do cliente, mais adequada às suas necessidades”. Mattosinho comenta que o próprio momento pede uma subscrição mais cautelosa. “Nós estamos pedindo aos nossos clientes a sua situação financeira mais atualizada. Temos enfrentado uma grande dificuldade pela determinação do Governo em não negativar as empresas.

Os bureaus de crédito eram um termômetro de curto prazo para a qualidade de crédito de uma empresa. A empresa pode estar morta e a gente está dando crédito para ela. Por enquanto está tudo bem, mas não sabemos de fato quando a conta irá chegar, mas ela vai chegar”. Na visão de Caroline Ayub, um bom trabalho de gerenciamento de riscos passa principalmente por investimento em tecnologia. “Destaco novamente as novidades que implementamos no seguro garantia. As novas plataformas, além de agilizar a contratação do seguro, também garantem maior segurança no cruzamento de dados e análise das informações. Desta forma, conseguimos ser mais precisos na subscrição dos riscos e na formatação de apólices
que vão ao encontro das necessidades de cada cliente”.

Ela complementa dizendo que não está havendo um aumento das recusas em virtude da pandemia. “Entendemos que é o momento de apoiarmos as empresas, oferecendo soluções para que elas consigam manter suas operações”. Na MDS Brasil, Freitas informa que as recusas também não estão aumentando, mas sim o critério das seguradoras na aceitação do risco. “As seguradoras estão tomando uma postura mais rígida, mais criteriosa para a aceitação do risco, mais do que há quatro meses. O cálculo atuarial continua sendo o mesmo, mas com uma ou duas regras adicionais”. Na Zurich do Brasil, Saccon valida essa informação. “A análise do risco tem sido cada vez mais criteriosa, com revisão dos apetites de risco, onitoramento
dos setores mais impactados, mas por outro lado, também observando as oportunidades geradas por outros setores que sejam mais resilientes nesse momento desafiador. Não há em si um aumento nas recusas, mas sim uma tomada de decisão mais criteriosa”. Segundo ele, com uma avaliação ainda cautelosa dos setores econômicos, gestão da empresa, resiliência financeira, ações concretas que estão sendo adotadas durante a pandemia e perspectivas futuras de negócio. “Permitindo,
assim, um maior gerenciamento das capacidade disponibilizadas e dos termos e condições oferecidos”.

Futuro

Em um futuro breve, pós-pandemia, os executivos destacam as linhas financeiras que devem se manter em alta. “Não atuamos com o seguro de crédito, mas é um ramo que crescerá e ele tem uma particularidade: quando está tudo bem, ninguém quer comprámercado -lo, quando está tudo mal, ninguém quer vendê-lo. Já vimos isso acontecer diversas vezes, sempre que tem uma crise. Também aumentará a demanda pelo seguro cibernético e pelos seguros de responsabilidades, D&O e E&O”, prevê Mattosinho. Freitas também destaca o seguro cibernético. “Ele terá uma procura ainda maior, quando entrar em vigor a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Não só pelo aumento do home office, mas para a proteção contra invasões nas
empresas e o controle da própria empresa fora do ambiente de trabalho. Existe uma preocupação grande para ter uma melhor proteção para isso”. Movimento visto por Golia, “o Cyber é uma tendência forte por conta da LGPD e após a pandemia, também as linhas financeiras. O maior recesso ainda não aconteceu. Primeiro vem o tsunami, depois vem o estrago, e entra a questão do seguro. Por agora, não estamos tendo reflexos na sinistralidade, ela virá depois. Infelizmente, a cultura é contratar o seguro depois que acontece o incêndio, haverá o reflexo efetivo de eventuais sinistros e empresas querendo contratar algo que já deveriam ter contratado”. “Entendemos que os produtos D&O, cyber e garantia continuarão experimentando uma procura maior para fornecer uma tranquilidade para as empresas e seus administradores superarem esse momento pós-crise e, restabelecerem suas atividades de maneira plena e produtiva”, pontua Saccon.
Segundo ele, há também a expectativa de retomada principalmente de projetos governamentais que fomentam investimento em obras de infraestrutura. “Podemos ver um aumento nas garantias de performance e manutenção pela procura também das garantias judiciais que, inclusive, seguem para inovações tecnológicas tornando sua contração simples e rápida”.

Gonçalves diz que a expectativa de um reaquecimento da economia ao longo do segundo semestre deve impulsionar as linhas de garantia e responsabilidades contemplando o D&O, o E&O e o RCG. “Somando-se a isso, com a vontade demonstrada pelo Governo em promover novas rodadas de concessões e privatizações, podemos ter um espaço ainda maior para o crescimento do seguro garantia em modalidades mais tradicionais, não se limitando apenas aos processos judiciais”. Ele ressalta que tão importante quanto a visão do cliente de que o seguro é fundamental, o mesmo tem que se considerar para a questão de condições da apólice. “Digo isso porque em inúmeras vezes os clientes focam muito na questão preço e isso pode levar a um problema de cobertura, que posteriormente pode gerar uma situação muito desagradável em caso de falta da mesma. Acreditamos que a demanda e consciência irá aumentar, mas também se faz muito importante que a visão das condições apropriadas a cada risco seja levada mais em consideração no momento”. Caroline Ayub diz que no mundo pós-pandemia, é importante analisar quais reflexos essa crise trará para o futuro. “O mercado de seguros é sinônimo de proteção e precisamos analisar como cada área do segmento será afetada. É inegável que o comportamento dos consumidores e das empresas mudou durante esse momento”. Para finalizar, ela expõe que o segmento de linhas financeiras tende a crescer. “Em um primeiro momento, acredito que o seguro garantia continue em crescimento acelerado, justamente pela questão econômica que afeta uma grande parcela da sociedade. Talvez a substituição do seguro garantia ao depósito recursal realizado em dinheiro seja um respiro para aqueles afetados, direta ou indiretamente, pela pandemia”.